quinta-feira, 30 de maio de 2013

Entrevista com o pesquisador Paulo Fonteles Filho, durante o lançamento em São Paulo do filme Araguaia, Campo Sagrado, dirigido por Evandro Medeiros.

Araguaia, Campo Sagrado, entrevista com Paulo Fonteles Filho.

“Ditadura produziu muito mais vítimas do que a historia oficial tem nos ensinado”, diz Paulo Fonteles Filho em entrevista ao portal Grabois. Filme mostra a dimensão da violência militar ao atingir camponeses, soldados e indígenas, além dos militantes políticos.

Em entrevista ao portal Grabois, o pesquisador Paulo Fonteles Filho, falou sobre a importância do filme Araguaia, Campo Sagrado, dirigido por Evandro Medeiros. A entrevista foi concedido no dia 7 de maio de 2013, quando o filme foi lançado oficialmente em São Paulo, no Cine Ocupa, do Tortura Nunca Mais-SP, na região central da capital paulista.
O que mais chama a atenção no filme é a diversidade de personagens que foram atingidos pela violência do estado, na região Amazônica, para além da militância política já conhecida na história. Fonteles explica que o filme surgiu do esforço que se acumulava na região do Araguaia, de instalação da Comissão da Verdade e do grupo de trabalho para localização e identificação de ossadas de desaparecidos políticos.
A princípio, os pesquisadores foram para a região em busca de 70 desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. “A dimensão do processo todo revelada pelos ex-soldados fala da morte de mais de 350 camponeses, só no período entre 72 e 75”, diz Fonteles. Após a instalação da Comissão da Verdade, os indígenas vieram a público contar sua história. “O caso dos índios Uaimiri Atroari revela que mais de dois mil índios foram mortes nesse período”, conta ele.
“O filme traz um conjunto de figuras importantes e ainda invisíveis. Ex-mateiros, que são camponeses torturados para servir como rastejadores às forças repressivas, além dos ex-soldados que dão uma dimensão maior da violência do Araguaia”, diz Fonteles.
É a partir desses relatos, que só fazem crescer e surpreender os pesquisadores, que Fonteles diz que a ditadura produziu muito mais vítimas do que a historia oficial tem nos ensinado. “O Brasil registra cerca de 400 mortos. 400 mortos são apenas os camponeses pobres do Araguaia. A tragédia é que essas vítimas ficarão invisíveis. Um ex-soldados contam de castanheiros que eram fuzilados no meio do mata sem identidade e anônimos”, diz o pesquisador.
Fonteles trabalha para reunir elementos para contribuir para a revisão da Lei de Anistia que possibilitou a impunidade ao aparato de tortura e assassinatos do estado brasileiro. “O Brasil não pode vacilar em relação à punição de torturadores. Encontramos soldados que chegaram a ser torturados e estuprados por coronéis com um fuzil na cabeça”, relata ele. Fonteles ficou perplexo diante a crueldade sem limite dos agentes das Forças Armadas que foram para a Amazônia, ao contar que um soldado era obrigado a levar o pai todos os dias para sessões de tortura, era obrigado a ouvir o suplício e depois devolvê-lo para cela. Uma tragédia familiar, patrocinada pelo estado, que afastou os dois de forma traumática.
Segundo Fonteles, a extrema violência testemunhada pelos moradores daquela região “se projeta depois em forma de enorme violência patrocinada pelas forças do estado para
fazer valer a espoliação nacional e estrangeira da Amazônia”. “Os resultados sao muito nítidos atualmente na realidade do país. Não é a toa que o Pará é o campeão da pistolagem, da violência do campo e do trabalho escravo. Processo que é intimidatório e procura preservar o silêncio e não permitir que a sociedade brasileira tenha acesso às informações do barbarismo que foi cometido na região”. De acordo com ele, a herança sinistra deixada pela ditadura precisa ser revertida por meio de políticas publicas que atendam demandas da pobreza regional, com mudanças na política de segurança e reparação financeira aos que mais precisam. “A Abin, que substituiu o SNI da ditadura, tem como referência investigar movimentos sociais”, diz ele, mostrando que, até hoje, as vítimas são as mesmas.
Embora abrace o filme pelo conteúdo político e pelo modo como expressa sua pesquisa, Fonteles defende a necessidade de retomada de um cinema político, “cinema de guerrilha”, que ao mesmo tempo conte a história do Brasil. “É um filme interessante, não só pelo desafio da imagem, mas pelo desafio do conteúdo. O filme acertou na política, o filme é bom politicamente falando. Denuncia e é atual. Agora o grande desafio é que ele tenha repercussão”, diz.
Nas primeiras exibições em Marabá e Belém, Fonteles diz que percebeu um impacto emocional pelo modo como o filme conecta do drama daquela população paraense com a Festa do Divino, uma religiosidade de “Brasil profundo e místico”, que mexe com todos os paraenses. “Mas o impacto maior é o relato da violência e a convicçãoo desse relato, retirando os véus do medo”, encerra ele, prevendo um novo filme, agora sobre a “guerra dos ossos”, ou seja, todo o processo de operação limpeza no Araguaia, que durou até 2004, com o Exército mandando missões à região para eliminar provas dos crimes cometidos pela instituição.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O documentário e os gritos do coronel

Por Paulo Fonteles Filho

Um grave acontecimento ocorreu no fechamento das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), que envolve os Ministérios da Defesa, Justiça e Secretaria de Direitos Humanos
 da Presidência da República: a tentativa de agressão de um oficial-militar, o coronel Cordeiro contra Gilles Gomes, assessor da Ministra Maria do Rosário e um dos principais coordenadores da missão que tem a responsabilidade apurar as circunstâncias das mortes, como, também, localizar e identificar os desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia.
Em tal expedição, a quinta e última de 2012, que localizou uma ossada humana, perfazendo um total de nove achamentos no ano, contou, ainda, com a presença da incansável Maria Rita Kehl, da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do Grupo de Trabalho sobre a violação dos direitos humanos dos camponeses e indígenas.
O estopim do contencioso ocorreu em função da exibição do documentário "Araguaia - Campo Sagrado", de Evandro Medeiros, nas dependências do Hotel Itacaiúnas, em Marabá, local escolhido pelo GTA para realizar os relatórios das missões por ter um amplo auditório capaz de albergar os representantes ministeriais, geólogos, médicos legistas, arqueólogos, antropólogos, familiares de desaparecidos, militares, membros do Ministério Público Federal, representantes de universidades e instituições de pesquisa, além de ouvidores independentes e do PC do B.
A película, cuja narrativa aborda os duros acontecimentos da invasão militar ao sul do Pará para sufocar o mais importante evento de resistência ao regime dos generais, a guerrilha do Araguaia, organizado na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) entre 1972 a 1975, é contundente pelos depoimentos de camponeses, ex-mateiros e soldados que atuaram naquele episódio.


A insubmissão araguaiana é conhecida tanto pelo heroísmo dos guerrilheiros como, também, pela violência desmedida da repressão política contra brasileiros, sejam militantes políticos que lutavam pelo restabelecimento das liberdades públicas, seja contra indígenas e camponeses, vítimas quase sempre anônimas no enredo dos acontecimentos. Houve, seguramente, mais de 350 mortes até a debacle do movimento comunista. Tais números, mórbidos, excedem em muito a história contada até aqui.
O filme, de cinquenta minutos, promove o segundo encontro, agora imagético, das figuras do ex-mateiro Sinésio Martins, já falecido, e do guerrilheiro-camponês, Jonas. O primeiro encontro de ambos se deu nas matas fechadas e ali, em 24 de novembro de 1973, na região do Pau Preto, São Geraldo, é morto o guerrilheiro, o "Ari". Ambos estavam lá, de armas nas mãos, em lados opostos e, cada um a sua forma, narram o fato que fora encerrado com o corte de cabeça daquele insurgente, ainda desaparecido.
Outro aspecto contundente do documentário é a denúncia do assassinato do ex-mateiro Raimundo Clarindo do Nascimento, o "Cacaúba", em junho de 2011. Tal rastejador, um dos mais importantes na caçada militar no Araguaia, silenciou por mais de trinta anos e apenas em maio daquele ano é que começou a falar o que sabia. Em fins de junho apareceu morto depois da visita do Major Curió na Serra Pelada, onde morava. Excluído da reunião dos ex-guias com o antigo chefe, revelou saber que sua vida estava em risco. Na época denunciei o ocorrido num artigo, "Relatos de um homem morto".


O inquérito aberto pela polícia civil paraense concluiu que o "Cacaúba" fora morto por latrocínio, roubo seguido de morte. Ocorre que aquele homem vivia em absoluta pobreza e ganhava os poucos tostões vendendo bananas num dos lugares mais miseráveis do país brasileiro.
Evandro Medeiros que, além de cineasta é professor do Campus de Marabá da Universidade Federal do Pará (UFPa) revela a descoberta de uma oração escrita de próprio punho por Osvaldo Orlando da Costa, o lendário "Osvaldão", e que por muitíssimos anos foi guardada, em segredo, por uma camponesa em São Geraldo do Araguaia/Pa. Através de seu filme podemos ver a letra do comandante negro das matas, verdadeiro herói de nossas liberdades públicas.
O filme, pulsante, recorta as tradições religiosas da festa do Divino Espírito Santo, na Serra dos Martírios/Andorinhas, que revela um Brasil culturalmente profundo com suas ladainhas e bandeiras e, através da narrativa de Euclides Pereira de Souza, o "Beca", podemos compreender o suplício de milhares de homens e mulheres atingidos pelos golpistas que assaltaram o poder em 1964.
Mas o que deve ter incomodado mesmo o oficial-militar fora a fala de um ex-soldado, Raimundo Melo, da primeira geração de soldados recrutados na própria região do Tocantins-Araguaia pelo Exército brasileiro em 1974.
No artigo "Sobre lobos e meninos" de fins de fevereiro de 2011, assim os caracterizei: " Passaram suas vidas com os lobos rondando seus telhados, humanidades e consciências. Um deles sente, por todos os malditos dias, o sangue de uma cabeça cortada percorrendo suas costas e seus caminhos e quer se libertar para resgatar toda uma vida que não foi e que nunca poderá ser se não disser o que sabe, o que viu, o que sente".
O fato é que Cordeiro, o coronel, invisível até então, equilibrado até então, revelou uma prática e visão de mundo dos tempos de Garrastazú Médici, que está em contradição com as forças armadas na democracia. Será que ele acha mesmo que os ex-soldados, muitos dos quais bestializados pelos superiores terão suas almas agrilhoadas eternamente aos rigores da caserna?
Esbaforido e nervoso gritou, no meio da sessão de cinema, orientando grosseiramente que todos os seus subordinados se retirassem dali para a perplexidade geral do cineasta, de familiares, técnicos, militares e representantes do governo federal. Como se não fosse o bastante tão triste espetáculo de intolerância, ainda tentou agredir fisicamente o representante da SDH, Gilles Gomes. Só não logrou sucesso pela intervenção do representante do Ministério da Defesa que, enfim, impediu qualquer ação contra aquele servidor público.
Houve até a tentativa de suspender a exibição do filme, o que me fez lembrar de "Je vous salue marie", de Jean Luc Godard, e que contava a história de um cristo contemporâneo, com dilemas plenamente humanos e atuais. Decididos, asseguramos a conclusão do documentário e, ao final, explodimos em aplausos.
Será que o coronel se sentiu desrespeitado pelo fato de que o filme narra o que verdadeiramente aconteceu no regime militar?
Quero crer que tal mentalidade, recalcitrante, seja minoritária entre nossos oficiais-militares e que o ato do coronel, de intimidação, seja exemplarmente punido e combatido dentro dos quartéis.
Tranquilo e pedagógico, o cineasta e professor Evandro Medeiros, ao final, conclamou, todos, a reflexão de que "a igreja católica é muito maior do que as inquisições da idade das trevas e o exército é muito maior do que os violentos da ditadura militar de 1964".
Ali, a seu modo, com a serenidade que os tempos atuais exigem, deu uma lição aos brasileiros que lutam para desenvolver nossa dimensão democrática e revelar, de uma vez por todas, os acontecimentos dos anos-de-chumbo. Só assim estaremos avançando no progresso espiritual deste imenso povo dos trópicos.
É por isso que gosto de gente, de inteligência e de cinema de guerrilha.Documentário Araguaia Campo Sagrado

sexta-feira, 24 de agosto de 2012





As altivas flechas amordaçadas

Por Paulo Fonteles Filho


Em fins de julho fui convidado para a comemoração do centenário do pajé Awaçai, velho índio Aikewara, na aldeia Sororó entre São Domingos e São Geraldo do Araguaia. Dirigi-me até a 
aldeia, distante uns 100 km de Marabá, em companhia do pesquisador Rodrigo Peixoto do Museu Paraense Emilio Goeldi.

Já havia estado ali em 2009 procurando estabelecer contato e coletar informações acerca de sepultamentos de desaparecidos políticos durante a Guerrilha do Araguaia. À época tomei conhecimento mais amiudado das pressões, constrangimentos, intimidações e violências praticadas pelas forças armadas contra aquela nação indígena na tentativa de sufocar o movimento insurgente araguaiano.

Do ponto de vista da história da repressão militar no país há pouca sistematização de como o regime se comportou diante da questão indígena. Sabe-se, em geral, que as políticas indigenistas praticadas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), nos tempos de generais no poder, eram todas militarizadas e estavam no famigerado organograma do estado de exceção inaugurado em 1964.

Muito já se disse sobre os grupos que lutaram contra o regime. Há livros sobre tudo relacionado ao tema, até torturadores já escreveram sobre o assunto. Jornalistas e escritores avulsos já se debruçaram sobre a questão. O heroísmo e as violências saltam dos livros, das memórias em luta e dos documentários. Há um enorme esforço em curso para a localização dos que lutaram, muitas vezes em armas, para libertar o país do jugo dos que promoveram a mais lancinante das ditaduras vividas no país tupiniquim.

Todos já foram citados, menos os índios. A não ser pelos trabalhos acadêmicos da antropóloga Iara Ferraz, pelas publicações do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e na revista “História Imediata”, organizada por um grupo de jornalistas que em fins dos anos de 1970 apresentaram, em tempos bem difíceis, a epopéia das matas e sertões do Araguaia. Naquela publicação os Aikewaras, como se reconhecem, são registrados nas páginas daquela publicação.

A bem da verdade o termo Suruí foi um batismo de Frei Gil, religioso que em certa medida “descobriu” aqueles silvícolas. Segundo Tiwacu, borboleta azul em tupi, um caçador que morava no pé da serra das Andorinhas/Martírios, chamado Zecró foi quem informou ao religioso da presença daqueles homens e mulheres, parte das nossas gentes originarias, naquelas paragens araguaianas.

O fato é que Frei Gil estabeleceu profunda relação com os Aikewaras na década de 1950. O termo tupi-guarani constitui uma visão de povo e de humanidade. Anos depois, já na década de 1960 foi que Roque Laraia, um dos principais antropólogos brasileiros estabeleceu contato com os Suruís. E tudo isso com a colaboração do franciscano que vivia pelas matas e corrutelas fazendo as desobrigas, ou seja, realizando casamentos e rezando missas em lugares distantes ou inóspitos.

Eram tempos em que Moroneiko era cacique. As tarefas do cacique estão sempre ligadas à condução dos destinos de seus iguais, como, também, na defesa da preservação de sua identidade cultural. Ambas as questões estão intrinsecamente ligadas formando uma unidade orgânica. Não haverá horizonte para a dignidade de nossos primeiros habitantes, mais antigos que o Brasil se a sua cultura, ancestral, não for preservada e difundida na atualidade.

Sabe-se que os Suruí, em tempos em que ninguém mais se lembra, travavam eventuais guerras com os índios Gaviões, nação do tronco macro-jê, mas isso é coisa de um passado bem distante. Seguramente que as lutas travadas pelos Aikewaras no século passado estavam sempre ligadas à sobrevivência enquanto povo, enquanto nação.

Acontece que a região do Araguaia conheceu na metade do século XX um surto de garimpo em busca de metais precisos, particularmente os cristais e diamantes. Cidades como Xambioá e São Geraldo surgiram a essa esteira.

A extração de pedras preciosas já é bastante antiga na região ao ponto dos portugueses construírem em São João, em 1795, uma fortificação para fazer o combate aos traficantes de minerais de alto valor. Os bandeirantes - dentre eles Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera - já haviam relatado nos idos dos séculos XVI e XVII sobre as montanhas de ouro dos Martírios.

A migração das gentes do nordeste e do centro-oeste para o garimpo fez crescer as pressões sobre os Suruí. Ao lado disso outro surto econômico, o da castanha, fez aumentar exponencialmente as dificuldades dos silvícolas a um nível, inclusive, de alienação de territórios e grave diminuição da população. Nas décadas de 1950 e 1960 as entranhas do Araguaia e do Tocantins vão conhecer a figura de Coriolano, jagunço que fez história por matar índios sempre no sentido de limpar os castanhais para seus novos “donos”.

Os Suruí quase desaparecem. Havia em torno de mil índios na década de 1940. A pressão seja dos donos de garimpos como também da grande propriedade rural reduziu-os, na década de 1960, a pouco mais de trinta indígenas como nos ensina a antropóloga Iara Ferraz, que viveu e estudou-os na década de 1970.

O fato de quase terem chegado à extinção lhes empresta um orgulho latente. Só não desapareceram porque foram fortes, mais fortes que os que atuaram para dizimá-los. O orgulho dos Aikewara emociona.

Os Suruí foram logo procurados quando as tropas oficiais invadiram o Araguaia em abril de 1972.

A memória de Tiwacu denuncia que dois helicópteros baixaram na aldeia e um sargento, valentão - apenas para com aqueles que estavam sob sua custódia, em geral agrilhoados - disse-lhe que os índios deveriam caçar “terroristas”, jargão utilizado pela repressão política para desqualificar aqueles que ousavam lutar pelas liberdades públicas. O ex-cacique além de ter levado coronhadas, de ter levado um tiro num encontro com a guerrilha nas matas, teve que - sob a mira dos fuzis - torturar a própria mãe de criação.

Muitas índias sofreram estupros e mais de uma dezena de Aikewaras foram obrigados a servir de rastejadores.

Recentemente o jornal “Brasil de Fato” expôs as contundentes declarações de Egydio Schwade, indigenista das antigas que, dentre outras declarações, afirma que pelo menos dois mil indígenas dos Waimiri-Atroari estão desaparecidos. Aldeias inteiras desapareceram à esteira da construção da BR 174 que liga Manaus à Boa Vista entre 1967 a 1977. Armas químicas e de fogo foram utilizadas contra os nossos primeiros habitantes.

A denúncia de Schwade é aterradora: “São diversas histórias e a mais chocante fala sobre morte em massa.Uma aldeia estava em festa e nessas ocasiões praticamente todo o povo se movimenta. Tudo indica que foi no final de setembro de 1974, quando de repente, um pouco mais do meio dia, um helicóptero do Exército jogou um pó sobre as pessoas que as deixaram todas mortas. Só uma pessoa não morreu. E foi como se não tivesse acontecido nada no Brasil”.

A Comissão Nacional da Verdade têm a tarefa de pôr a nu tais atrocidades.

Naquele dia do centenário do pajé Awaçai pude encontrar Massú, que já conhecia de nome através da figura emblemática de Sinvaldo Gomes e de relatos que ele me fazia nas imensas noites na beira do Fortaleza, igarapé dos insurgentes, nos anos de 1990. Sinvaldo sempre falava de Massú. Ao vê-lo lembrei-me do amigo que, em certa medida, me reapresentou as gentes e os sertões araguaianos.

Mesmo em tempo de festa os Suruí não deixaram de falar de suas preocupações e, em particular, da necessidade de expansão de seu território. Em certa medida a ampliação de suas terras corresponde à sobrevivência das futuras gerações. Ocorre que ao longo dos anos o Incra assentou nas terras reivindicadas pelos Aikewaras mais de 120 famílias de pequenos proprietários de terras, jogando uns contra os outros.

Naquele dia perdido de fins de julho Akarapytan pintou-me, com jenipapo, a flor da castanha, no rosto e braços. Falou-me do petymahow, festa espiritual que envolve a fartura da terra. Ensinou-me que menino é iwsa, e. Que kuso é mulher e que akuma, e é homem. E que nunca devo me comportar como um camará-punura, ou seja, branco ruim. Aprendi, também, que sahi quer dizer lua, que ara é sol e que isa é terra. A cosmologia dos nossos primeiros habitantes impressiona.

Renê Suruí que escuta a conversa nos dá a noção da dialética quando, em meio ao nosso aprendizado afirma que “o feio e o bonito está junto”. O jovem Renê deve estar falando da trajetória ancestral daquela nação.

Arekassú, sentado meio distante faz um cigarro com matá-matá, casca de pau que se não me falha a memória se chama mamae. Já não quero mais meus cariús, cigarro de branco. O velho índio que não sabe a idade me fala do mito de tuãpekwakaw-kwera, nome da índia que morreu com uma espinha de peixe entalada na garganta.

Mesmo com todas as dificuldades e pressões os Suruí já são mais de 400, divididos em dois aldeamentos, Itahy e Sororó. Cerca de 20 estudam na Universidade do Estado do Pará (UEPa), são bem politizados e fazem um esforço necessário para reaprenderem sua língua e cultivarem suas tradições. Não haverá dia em que me esquecerei do orgulho Aikewara.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Carta ao meu pai

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Nos últimos 25 anos temos convivido com o teu desaparecimento - violento e precoce - de forma muito dura e o sentimento de impotência têm sido uma constante em nossas vidas, porque, apesar de sempre buscarmos seguir o teu exemplo, seja pela militância política, seja pela conduta pessoal, a impunidade é absolutamente devastadora e os dias - por vezes, terríveis - vai nos afastando de nosso último encontro naquele 10 de Junho de 1987, um dia antes de ser morto.

Por Paulo Fonteles Filho*


Mas fazer o quê? Senão seguir a vida, não é mesmo meu pai?

Ontem passei a noite em claro pensando nessas coisas todas e me perguntava se passaríamos a vida toda com esse sentimento, o da impunidade e que se continuaríamos, pelo resto de nossos caminhos, com a espada de Damos sobre nossas cabeças, desta imensa luta, sobretudo dentro de nós: a luta contra o esquecimento e contra o abatimento, manifestação de quem se vê humilhado pela imensa violência daquele distante e triste Junho de 1987.

O que é pior é que a coisa toda vai acontecendo, mais mortes por encomenda, mais poderosos debochando sobre o sangue derramado, mais autoridades que se enforcam nas gravatas da impunidade, mais juízes optando pelo vil metal, mais dias, noites, e tudo vai nos dando, sempre, a dimensão de que é comum tais ações de pura infâmia que se abateram sobre teus trinta e oito anos e que devemos moldar nossos espíritos para que se acostumem as desgraças de ontem, de hoje e sobretudo para aquelas que nos reservam o futuro. Estaremos nos acostumando aos violentos?

E a espiral vai moldando o cenário aterrador em que o grande risco é a acomodação e a aceitação das três balas, estampidos que ainda nos matam todos os dias, que te calaram os olhos, olhos vigilantes aos profundos problemas do povo, que te levaram o riso, o dedo em riste, a eloquência e a paixão, mais que rubra de quem canta o mundo novo e o homem que vai se forjando à esteira do tempo. 

Te procuro na noite chuvosa. Não eras apenas o político, o agitador, fiel ao que pensava e como tal agia. 

Tinhas grandes sonhos - para além de um país mais justo e democrático - e gostarias de ter vivido bem mais, de poder ter brincado irresponsavelmente com teus netos, de ter tido mais tempo para o amor, para os livros, para ensinar e aprender, para ter mais rebentos - irmãos que nos levaram -, para ter mais amigos e cultivar os velhos, para escrever poemas e romances de uma vida toda que não foi porque os algozes, que têm as centauras mãos do dinheiro, que estão nos governos e no judiciário, simplesmente decidiram marcar hora para que teus mais belos sonhos fossem sepultados. Mas não foram! 

Desculpe-me o desabafo, mas certas coisas nunca passam e nem devem passar com o risco de que fiquemos desfibrados. Dentro da gente, sinto, há uma mão que sufoca e outra que empurra, e a angústia vai se tornando norma que ilustra a realidade que somos, todos nós, empurrados à enfrentar.

Ao falar-te isso lembro do Chaplin, em "O grande ditador". Aliás, todo homem e toda mulher não podem passar pela vida sem compreender o discurso - este sim, verdadeiramente revolucionário - de 1940. 

Lá pelas tantas ele forja os espíritos e sentencia: "Soldados, não se entreguem a esses homens cruéis. Homens que desprezam e escravizam vocês, que querem reger suas vidas, e te dizer o que pensar, o que falar, o que sentir, que treinam vocês e tratam com desprezo para depois serem sacrificados na guerra. Não se entreguem a esses homens artificiais. Homens-máquina, com mente e coração de máquina. Vocês não são máquinas, vocês não são desprezíveis, você é homem (...). Soldados, não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade!". 

Faço esse aparte do eterno "Carlitos" para dizer que por vezes, tais "homens cruéis" são refinados com suas togas de mármore e vivem numa realidade nababesca, distantes das imensas necessidades da justiça, possibilidade inalcançável para a grande maioria do povo brasileiro.

Mas é preciso recobrar o ânimo e a sede de justiça e falando-te assim falo aos meus botões, sempre.

Muitos, os que antes bradavam, passaram a aceitar e querem que o tema fique cada vez mais velho para que morra tal qual faz o curso do esquecimento. Não temos esse direito!

Amanhece e escuto "Guantanamera". E a guajira vai me fazendo lembrar de minha mãe, Hecilda.

Logo aqui ao lado minha mulher, Angelina, dorme com minha filha caçula, Sophia Lautaro. 

Veja meu pai que ali está o João Carlos Haas, nome de guerrilheiro que destes ao filho em homenagem ao "Juca" do Araguaia. Mais tarde encontrarei o Ronaldo e o Pedrinho. Estamos tramando, como carbonários, para que o dia chegue prenhe de pão e terra para os posseiros. Passa por meus pensamentos a canção da liberdade guardiã.

Conheces bem - tua morada - os imensos sertões. Ali estás insurreto pela coragem camponesa. 

Mas do que nunca é decisivo forjar, primeiro na gente, a convicção e recobrar a luta porque ela não foi em vão. Aqui lembro de tua mãe, Cordolina, e daqueles olhos viscerais por justiça, de vibração longeva, de ódio aos covardes senhores do latifúndio. A memória deve seguir nos inspirando pelos dias e pelas noites porque essa história está longe do fim.

Naquele poema de Conceição do Araguaia, de despedida, dizias que estaríamos de fuzis, libertando-te, e sinto o aço entre os dedos, o aço das palavras, das vozes que não dormem, que tremulam como bandeiras da esperança contra a loucura malsã. 

Não estás morto, insepulto, porque temos pedras nas mãos.

O morto insepulto


Por Lúcio Flávio Pinto.
Um dos crimes de maior impacto no Pará completou 25 anos no dia 11. Nesse dia, em junho de 1987, Paulo Fonteles de Lima foi morto com três tiros na cabeça. A primeira bala o matou na hora. As duas outras foram apenas para não deixar dúvida. O pistoleiro que o executou era profissional, um nordestino recrutado na Baixada Fluminense por fazendeiros da conflagrada região sul do Estado, recordista em violência rural.
Aos 38 anos, Fonteles era membro de uma grande família estabelecida em Belém, com influência na vida local. Celebrizou-se por ser o primeiro advogado a defender posseiros, os deserdados do "sistema", que afluíam aos milhares para a Amazônia atraídos pelo canto da sereia da propaganda oficial, de que havia terras para todos.
Não havia. Legiões de nordestinos, presos a sistemas seculares de servidão (e, depois, colonos sulistas), eram levados para as margens da rodovia Transamazônica. O mesmo governo, porém, como se no cumprimento esquizofrênico da ordem bíblica (para que a mão direita não soubesse o que fazia — o bem, não o mal — a esquerda), entregava imensas glebas a um pequeno número de proprietários e empresas.
O resultado: a Amazônia, que devia ser o Éden fundiário, fechou por dentro, com um índice gini de concentração da propriedade maior do que o do próprio Brasil. Ao atravessar seus limites, na esperança de se tornar finalmente um proprietário rural, o colono se via reduzido à condição de posseiro. Sem alguém para defendê-lo, ou se sujeitava mais uma vez a ser expulso e continuar seu roteiro migratório rumo aos extremos — oeste e norte — do país, ou resistia à ordem de despejo e entrava na roda-viva da violência.
Esse ambiente tenso teve uma das suas mais graves explosões em 1976. Exatamente no dia em que os Estados Unidos comemoravam o bicentenário de sua independência, 4 de julho, três cidadãos americanos, donos do maior (e, como sempre, frágil juridicamente) imóvel rural da região da estrada Belém-Brasília, foram mortos por posseiros.
O chefe da família, John Davis, tinha sido coronel da aviação e heroi americano na guerra da Coreia, logo depois da Segunda Guerra Mundial (onde EUA e URSS estiveram próximos de nova conflagração, que viraria guerra ideológica, fria). Tornou-se depois pastor evangélico e foi acusado de praticar o controle da natalidade entre brasileiras. Nada foi provado.
Os órgãos de segurança não tiveram dúvida: alguma organização subversiva e terrorista devia ter incitado o ataque aos gringos. Devia ser para criar embaraços à relação do Brasil com o gigante do norte.
Todos os 16 lavradores que participaram do ataque foram presos em condições sub-humanas e torturados. Não tinham, porém, a mínima ideia sobre a vinculação que lhes era atribuída. Finalmente uma pretora do interior interrompeu a incomunicabilidade ilegal e três advogados puderam vê-los.
Um deles era Paulo Fonteles (outro, também jovem, Gabriel Pimenta, seria assassinado 10 anos depois, em Marabá, também sugestivamente conhecida por "Marabala"). A igreja, já tendo feito a opção preferencial pelos pobres da Teologia da Libertação, contratou Fonteles para se dedicar integralmente à assistência aos posseiros em uma região que era autêntico barril de pólvora.
O vale do Araguaia tinha sido palco da pouco eficiente (mas de grande impacto) guerrilha implantada pelo Partido Comunista do Brasil, entre 1969 e 1974. Desde então ficou sujeita ao carimbo da segurança nacional, atenta a qualquer ameaça que surgisse, real ou (como na maioria dos casos) imaginária.
Fonteles era militante do PC do B. O partido saiu da margem do rio e foi montar um novo tipo de base, já sem veleidades do foco guerrilheiro à moda cubana, na beira da estrada, a mais extensa em território paraense, com mil quilômetros no sentido norte-sul, de Belém à divisa com Mato Grosso.
A igreja sabia desse fato, mas o ignorou. Mesmo porque ninguém queria seguir na aventura de alto risco. É que surgia então a possibilidade de derrubar um autêntico "bate-pau" (informante dos órgãos de segurança), que ocupava como interventor o principal sindicato, o de Conceição do Araguaia.
Tudo indicava que um líder em formação, mais conhecido por Gringo, devido aos seus cabelos alourados, podia derrotar Bertoldo Lira. Raimundo Ferreira Lima foi assassinado em plena época de campanha eleitoral. Sua morte rompeu o controle férreo que o governo exercia desde a extinção da guerrilha. A pequena cidade de Xinguara testemunhou a primeira passeata no interior da Amazônia, com seis mil participantes, em 1980, indignados pelo assassinato.
Com os créditos da sua intensa atividade como defensor dos posseiros em litígio com os proprietários, Paulo Fonteles se elegeu deputado estadual dois anos depois pela legenda do PMDB, que conquistou o governo do Estado, em 1982, com o então oposicionista Jader Barbalho.
Em 1986 Paulo tentou ser deputado federal constituinte, mas lhe faltaram os votos necessários. Sentindo-se traído, abandonou o PMDB e assumiu sua condição de comunista, filiando-se ao PC do B. No mesmo ato, em outro local, sem qualquer registro escrito, foi ditada a sua sentença de morte. Ele perdera o guarda-chuva institucional que o protegia.
O crime foi cometido quando, no lugar do carona, numa caminhonete do irmão, ele esperava pela volta do motorista, num posto de gasolina na região metropolitana de Belém. Era o primeiro crime político em muitos anos na maior cidade amazônica, já então com mais de um milhão de habitantes. Quebrava uma regra não escrita de que na sede dos poderes constituídos esse tipo de violência não seria praticado. A escalada da barbárie deixou de seguir essas suscetibilidades morais.
Os dois pistoleiros que participaram do atentado foram mortos. Um deles, em literal queima de arquivo: seu corpo foi incendiado. O organizador do assassinato, o paulista James Sylvio Vita Lopes, foi preso, quase seis anos depois, levado ao tribunal do júri e condenado a 21 anos de cadeia. Por bom comportamento, cumpriu só um terço da pena. Hoje, aos 64 anos, vive em Jundiaí, em São Paulo.
E os mandantes? Nenhum foi preso. Chegar a um deles seria importante para quebrar a impunidade dos "cabeças" desse tipo de violência e inibir os crimes de encomenda. O assassinato de Fonteles foi o primeiro em que esteve envolvido um consórcio. Não um, mas vários interessados, dos quais um receberia a incumbência de colocar em prática a decisão, por sorteio. Se fosse descoberto, a punição ficaria nele, que seria a barreira.
Mas nem o fazendeiro mineiro Fábio Vieira Lopes foi perturbado. Ninguém foi atrás dele, exceto Antônio Pereira Sobrinho, o autor dos disparos. O pistoleiro foi cobrar a outra metade do pagamento combinado— e nunca mais foi visto.
Nem a data redonda, de um quarto de século do crime, foi suficiente para reabrir o "caso Fonteles". Mesmo os poucos que se lembraram dele o trataram, 25 anos depois, como página virada da história, capítulo definitivamente escrito. A indiferença ao final do enredo renova a impunidade num momento perigoso, quando os crimes encomendados a pistoleiros para acabar com personagens incômodos voltam a se tornar frequentes no sertão amazônico.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Amaro Lins

                   

Por Paulo Fonteles Filho.

Um dos grandes destaques da caravana de familiares dos desaparecidos políticos na guerrilha do Araguaia de 1980 foi o "aparecimento" da figura emblemática de Amaro Lins.
Amaro Lins era operário no Rio de Janeiro e militava no PC do Brasil desde a sua reorganização em 1962. Foi um dos primeiros a chegar no Araguaia e teve papel destacado na preparação do movimento insurgente, a mais elevada manifestação oposicionista ao tirânico regime dos generais. Como todos os que se deslocaram para a Amazônia teve de largar tudo, o emprego e a primeira familia, que só foi reencontrar na década de 1990 depois de quase trinta anos vivendo em terras paraenses.
O início de sua jornada, em 1967, seguiu a segura rota do Mato Grosso até aportar em Conceição do Araguaia, no Pará. A cidade situada na margem esquerda do rio dos Karajás e fundada pelo dominicano francês Frei Gil de Vilanova, ainda no século XIX, foi o local escolhido pelos dirigentes comunistas para ser o inicial ponto de entrada daqueles que, anos depois, se tornariam guerrilheiros quando as forças repressivas invadiram à região do Bico-do-Papagaio em 1972.  
Sabe-se que além da Amaro Lins, outros militantes como Orlando Osvaldo da Costa, Daniel Callado e Paulo Rodrigues teriam passado certo tempo em Conceição do Araguaia estudando a geografia da região, percorrendo as grotas, os caminhos de mata fechada, sempre no sentido de criar bases profundas para o estabelecimento das melhores condições materiais e políticas para enfrentar a ditadura militar brasileira.
Em 1968 já morava em São Geraldo do Araguaia numa gleba na beira do Araguaia com Paulo Rodrigues. Logo se juntaram Daniel Callado e o médico João Carlos Haas, com a tarefa de montar uma farmácia. As tarefas para atender a saúde da população local se confundiam com outras, como as de regatão, no comércio, na agricultura e na pequena mineração.
Por esta época Dinalva Oliveira e o marido Antônio Teixeira já estavam nas imediações, tocavam um açougue e faziam levantamentos geológicos numa região farta em pedras preciosas, como diamantes e ametistas. Ambos, com o endurecimento do regime de excessão largaram o confortáveis empregos de geólogos do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), na Bahia. 
O sucesso da luta no Araguaia dependia muito das condições materiais criadas na própria região, na atividade laboral. Não havia recursos de "fora" e o trabalho cotidiano foi um dos alicerces para - além de promover a economia da empreitada rebelde - a integração mais amiúde com os moradores araguaianos e a necessária compreensão das suas necessidades.
Tal economia foi que permitiu a abertura de vilarejos, como o "Patrimônio", na região dos Caianos: Arildo e Áurea Valadão davam aulas na currutela iniciada por Paulo Rodrigues.
Amaro Lins ia sempre na frente, abrindo picadas para introduzir os "paulistas" que depois ficariam conhecidos pelos camponeses como  "o povo da mata".
Nas lonjuras daqueles sertões foi que conheceu e se apaixonou por Neuza e com ela resolveu casar, numa das várias histórias de amor geradas à esteira da preparação do movimento guerrilheiro. Tais histórias de amor precisam ser contadas porque assim falamos da humanidade que só a resistência e a luta pela liberdade podem produzir.
Acontece que a necessidade da preservação da empreitada, cuja a segurança era estratégica, fez com que Amaro Lins tivesse um papel de "elemento de massa" quando as tropas governamentais atacaram as bases da guerrilha em abril de 1972. O apoio material e de informações eram suas principais tarefas.
Na caravana de 1980 Amaro Lins foi apresentado pelo advogado-do-mato Paulo Fonteles aos viajantes e prestou o seguinte depoimento:
"(...) foi em 1972 quando estourou a guerrilha (...) eles passavam pela minha roça e eu já tinha uma criança, o Vladimir e o "Juca" (João Carlos Haas) cuidava amigavelmente. Minha vida era só trabalhar e nada mais. Quando estourou eles entraram para dentro da mata, deixaram uma pessoa cuidando da fazendinha deles. Nessa época três elementos de metralhadora entraram na minha casa e eu não sabia de nada. Tinham prendido um bocado de gente e eu fui delatado (...) chegaram perguntando se eu era o Amaro e disseram-me: 'a guerra estourou' e eu respondi: 'guerra, guerra de quê?'. Um deles me disse: 'o caso é o seguinte: eu já sei de toda tua vida e a finalidade de tu estares aqui, já me contaram tudinho, não adianta mentir' (...) eu respondi: 'se você já sabe não adianta nem eu falar!'. Eles diziam que queriam que eu contasse minha história direito (...) fui levado para Xambioá onde passei nove dias, fui submetido a choques elétricos por três vezes e depois, no dia 22 de abril (de 1972) fui mandado para casa, no dia em que o Vladimir completava dois anos. Antes da sair eles disseram-me: 'tu vai para lá e se aquele "povo da mata" aparecer tu já sabes o que vai fazer, nos comunicar'. Uma semana depois que eu tinha chegado em casa apareceram vinte e dois soldados da Aeronáutica e queriam que eu acompanhasse a tropa até a casa do Pedro 'Onça' que ficava à sete léguas, mais ou menos vinte quilômetros. Naquele momento chegou um amigo da região, o seu Gilberto, com um animal. Fizeram um campo de pouso e prenderam-me de novo. Nessa ocasião senti o medo da morte porque um sujeito disse que eu dava comida para os guerrilheiros. O tal sujeito se chamava Manoel Carneiro e me delatou para ganhar dinheiro. Nos dois fomos humilhados, chegaram a botar aparelho de choque no saco do Manoel Carneiro que afirmava que eu sabia onde estava o pessoal e que fazia dois dias que chegara o pessoal: o 'Juca', Paulo Rodrigues e Daniel (Callado). O comandante parece que percebeu a mentira e pararam com a tortura (...) naquela época vi a Áurea (Valadão) chegando presa em Marabá (...) quando eu voltei vi o Daniel e o piloto dizia que ele ia para o 'Arexim' que por nós é conhecida como 'Marcilinense' (base militar localizada na beira do Araguaia, na atual Piçarra do Pará). A última vez que eu vi o Daniel ele ia sair com oito militares (...) Daniel e Áurea foram mortos covardemente, não foi em combate (...) quando estourou a guerrilha eu morava na 'Água Saloba' e o 'Jorge' (Bergson Gurgão) foi o primeiro a tombar na região. Nessa ocasião o Paulo Rodrigues apareceu junto a minha casa e me disse que havia marcado um encontro com um tal de 'Cearense', que morava perto dele e que era muito amigo (...) o Paulo tinha pedido (...) para comprar pilha e algumas coisas. Eu disse ao Paulo: 'companheiro você não devia ter se identificado' (...) eu vinha de Araguanã  e disse que o tal 'Cearense' não era de confiança. 'Não vá!', disse-lhe.  O Paulo Rodrigues me respondeu: 'será? eu já marquei'. No dia seguinte escutei na beira dos Caianos uma rajada de metralhadora. Pensei: 'acabou com o pessoal'. Uma parente da Neuza chorava e dizia: 'acabaram com o Paulo Rodrigues e todo mundo'. As tropas chegaram de noite, dormiram pela área (...) aquele infeliz do 'Cearense' é que foi o culpado (...) pude ver um helicóptero baixando e pegou o 'Jorge'. Um praça foi baleado e outro morreu em Belém (...) no outro dia Paulo Rodrigues apareceu lá onde eu estava e me disse: 'aquele informe que você deu foi certo mesmo, só não foi todo mundo porque nós fomos vivos mas o "Jorge" ficou' (...) desse dia em diante, ele, Paulo Rodrigues não apareceu mais (...)".
Amaro Lins, além de prestar preciosas informações, estimulou vários lavradores a falar sobre a repressão praticada pelas tropas governamentais. Em tais depoimentos atestou-se que vários dos desaparecidos na guerrilha foram presos e que, sob a custódia dos militares, foram assassinados e tiveram mãos e as cabeças cortadas. Tal barbarismo era para efeito de identificação, realizadas em Brasília ou em Belém do Pará.
Acerca de sua retomada na atividade política revelou:
"(...) fiquei todo esse período sendo vigiado, isolado. Depois de muito tempo apareceu uma missa diferente e eu estava sem documento e apareceu um padre por nome Aristide (Camió) por lá, celebrando missa com os lavradores, achei a missa diferente e fui conversar com o padre e me identifiquei para ele e contei a minha história (...) estou aqui até hoje e sou membro do Partido (...) o padre me disse: 'hoje vai vir uma pessoa que quer conversar com você'. É quando chega o Paulo Fonteles e desse dia para cá é o dia em que me liguei ao Partido até hoje (...) por intermédio do padre, me liguei ao Paulo Fonteles (...) fui até Belém (...) foi melhor eu não morrer para contar a história da nossa luta (...) estou firme para o que der e vier e caso amanhã precisar de um combatente contra a classe dominante o Amaro ainda tem força para fazer qualquer coisa em beneficío do nosso Partido (...)".
Vai amanhecendo o dia e ao escrever este artigo vou lembrando-me da passagem de Amaro Lins com a família por Belém, no início de 1980. Com os tons rubros da alvorada recordo-me que a família ficou muito tempo em casa, hospedada, coisa muito comum na minha infância.
Por aqueles dias bem distantes tive o primeiro entendimento da luta que meu pai travava e isso aconteceu pelo fato de ter reclamado com "aqueles camponeses haviam ocupado o meu quarto". Tal comentário fez com que rapidamente me respondesse "que não admitia que filho seu falasse assim dos camponeses, pois que eles me dão suas redes para dormir e me protegem a vida". Nunca mais dei um pio e na forma infantil de entender as coisas sabia que eles eram o sal da vida daquela generosa existência ceifada pela vileza do grande latifúndio, em junho de 1987.
Amaro Lins faleceu no início da década passada deixando-nos o precioso legado que só a luta do povo pode engendrar, de muitos combates, sempre por causas justas e civilizatórias.
Neuza Lins e os filhos Vladimir, Carlos, Maurício e Helenira continuam em São Geraldo do Araguaia e seguem o legado do patriarca "de viver a vida do Partido".
São como irmãos que a vida nos dá, irmãos de classe, irmãos da igualdade, irmãos para que a vida prossiga como este sol que vai banhando-me o rosto na exata hora em que tudo amanhece.    

terça-feira, 17 de abril de 2012

A caravana, os camponeses e a crença no Exército.


Por Paulo Fonteles Filho.

Na caravana de familiares de 1980 o advogado-do-mato, Paulo Fonteles, forneceu aos viajantes informações de aspectos importantes que deveriam ser compreendidas naquela ousada expedição araguaiana:
"(...) bem, o coração de vocês deve ser bastante duro nessa viagem porque vocês irão ouvir coisas não muito boas de se ouvir: camponês que entregou guerrilheiro, que envenenou guerrilheiro, que levou para comer em casa e botou veneno (...).

"Paulo, se eles eram tão estimados como fizeram essas atrocidades com eles?", perguntou Edgar Corrêa, pai da desaparecida Maria Célia Corrêa, a 'Rosinha'.

"Seu Edgar - explica o advogado- têm, por exemplo, um camponês do qual não recordo o nome que entregou  parece que a "Sônia"(Lúcia Maria de Souza). E esse homem até hoje vive pelas matas se maldizendo 'por que eu fiz isso? por que eu entreguei a "Sônia"? se ela era tão boa para mim! porque eu fiz isso?' Inclusive a "Sônia", na hora que foi presa, disse para ele o seguinte: 'Eu não tenho pena de ti, eu tenho pena é de teus filhos'. Então, na imagem dele, na cabeça dele, parece que ficou que a guerrilheira morreu e vai perseguir os filhos dele (...) o fato concreto é que o Exército conseguiu o apoio de uma boa parte da massa (...) mas uma outra parte da massa apoiou a guerrilha até o fim (...) teve camponês que foi torturado porque apoiava a guerrilha, camponês que foi assassinado, essa dupla realidade a gente encontra na região (...)".

Paulo Fonteles interrompe a narrativa, acende um cigarro e prossegue:

"Talvez eu esteja sendo assistemático, mas gosto de falar de dados reais. Há um camponês na região do 'Paradalama' chamado Manoel 'Gago'. O primeiro contato que eu tive com ele está fazendo um ano e meio. Era um contato para prestar assistência jurídica a uma luta que ele vinha desenvolvendo contra uma turma de grileiros. Manoel 'Gago' começou a me contar que havia entregue um guerrilheiro; amarrou-o na casa dele e foi chamar o Exército para buscá-lo (...) contava festejadamente. Fui para minha cama, fumei uns dois cigarros, me refiz da coisa toda e comecei a pensar 'o que eu vou fazer com esse filho da puta?, servir de advogado dele, esse bandido que entregou um companheiro?'. Mas, finalmente, eu percebi que o camponês não tinha culpa no cartório, foi usado como instrumento da reação (...) voltei para conversar e a gente criou uma amizade".

O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) procura dar régua-e-compasso para os mais de vinte caravaneiros, precisamente sobre como tratar e compreender os lavradores:

"O Manoel 'Gago' já era uma liderança de luta de massas da região dele quando começou a se desenvolver politicamente e a gente sempre conversava sobre a guerrilha quando discutia. O movimento de massas foi crescendo na região (...) até que chegou um momento em que o Manoel 'Gago' tomou consciência do que fora a guerrilha. Eu me lembro bem que eram umas cinco e meia da tarde quando eu bati no ombro do Manoel depois de um encontro pastoral: 'pois é Manoel, tu já sabes o que aquele pessoal estava fazendo aqui?', aí ele me disse: 'agora eu sei!'. Quando foi na hora da missa, têm a hora da remissão dos pecados em que o pessoal começa a pedir perdão (...) então o Manoel começou muito emocionado a pedir perdão à Deus: 'meu Deus, meu Deus, eu peço perdão pelo mal feito com gente que gostava de nós, que eu não sabia e que eu fiz muito mal'. Pois bem - prossegue Fonteles-  eu contei essa história do Manoel para explicar a conduta que uma parte da massa teve diante da guerrilha. Então, isso é para que a gente tenha consciência para que, se a gente encontrar um camponês que deseje falar e que tenha participado como guia ou como agente da repressão, ou que tenha entregue algum companheiro; a gente saiba ter uma conduta política diante desse camponês, perceber que, na verdade, ele mais do que culpado foi vítima daquela situação. Não é que a história vá se repetir (...) teve outro camponês que me contou a seguinte história: 'olha - o advogado comunista relata a advertência do lavrador para com os guerrilheiros - vocês vêm na minha casa e o dia que vocês vierem têm almoço, comida, têm tudo. Agora vocês não me digam o dia que vocês vem'.

A explicação para aquela atitude veio em seguida:

"Porque se eles, os guerrilheiros, dissessem e o Exército chegasse lá, ele, o camponês, submetido à tortura talvez dissesse o dia. E tem exemplos desse tipo, de fato. Um conjunto expressivo esteve até o fim do lado dos guerrilheiros. Bem, acho que esta história (...) é bom não entrar em digressão teórica, mas o exemplo vivo ensina muito mais coisas. Há hoje (1980) este movimento camponês na região. Será que têm alguma coisa haver com a guerrilha (...) e o movimento camponês hoje na região? (...) bem, alguns acham que não há (...) eu provo que há!".

A preocupação permanente  do advogado-do-mato, Paulo Fonteles, era o retraimento da população diante da caravana. A justeza da inquietação correspondia ao fato de que toda a área deflagrada pelo movimento guerrilheiro era um campo sensível para a aplicação da ideologia da segurança nacional, própria daqueles tempos. Entre os aspectos destacados está o fato de que "(...) Marabá, por exemplo, seria a última cidade onde a abertura política iria chegar".

O trabalho da CPT na região, tendo por base o serviço ao povo e a politização já estabelecia um contato mais aprofundado com os trabalhadores rurais araguaianos. Nos mais remotos dos sertões, naquilo que chamamos de país profundo, a equipe da pastoral preparava a população para o enfrentamento ao latifúndio e, via de regra, utilizava a questão da luta guerrilheira. Muitos lavradores abandonavam o termo pejorativo "terrorista" pelo justo "guerrilheiro" e estes passavam a entender os motivos da luta das Forças Guerrilheiras do Araguaia.

Na prática o entendimento se manifestou quando, em 1976, os camponeses organizaram em São Geraldo do Araguaia a "Guerra dos Perdidos" ou a "Segunda Guerra", segundo a memória dos que, com armas nas mãos enfrentaram o Exército e a Polícia Militar do Pará. Tal enfrentamento ocorreu por conta da ação do Incra que, atuava favoravelmente à grande empresa rural ensejando a expulsão de numerosas famílias de suas terras. A "Guerra dos Perdidos" foi relatada há poucos anos pelo jornalista Leonencio Nossa, de "O Estado de São Paulo", num conjunto artigos sobre eventos de lutas sociais - "As guerras desconhecidas do Brasil" - ocorridas no século XX, sempre nos áridos sertões brasileiros.

Para ilustrar aquele ambiente de luta campesina, Paulo Fonteles, que desde 1978 atuava na região exemplificava:

"(...) não sou, companheiros, apologista da guerrilha (...) a caravana pode contribuir muito para o avanço das informações sobre a guerrilha. O fato é que estende-se por toda a região um movimento camponês muito forte a ponto de lavradores, às vezes analfabetos, discutirem 'testa a testa' com coronel e firmarem posição. Há quinze dias atrás, na região dos 'Claros' (São Geraldo do Araguaia) um grupo de lavradores impediu que os agrimensores do Grupo Executivo de Terras Araguaia-Tocantins (Getat) - orgão militarizado de política fundiária- de cortar uma área (...) foram lá e disseram: 'vocês não vão cortar a área porque a área já está cortada (...) o Getat não vai mexer em terra de ninguém (...) "lei nós já têm", vocês tem que medir (...)'. Os lavradores estão contrariando toda a política do Getat e foram fazer discussão na sede do Getat em São Geraldo do Araguaia com coronel e representantes de Brasília dizendo que lá 'ninguém vai mexer na terra' (...) e o Getat respeitou, até porque por trás da ação de um grupo de lavradores têm toda uma massa relativamente organizada".

O advogado aborda uma questão absolutamente delicada:

"(...) o problema central do movimento camponês na região é a crença no papel das forças armadas, que estas respeitam o povo - e cita exemplos- antes de estourar a guerrilha o Exército demagogicamente impediu que a terra de um lavrador fosse grilada. Foram lá, prenderam os jagunços (...) problema de terra, vai no oito (52 Bis), lá se encaminha para o juiz, para o delegado (...). Fato novo, dia 13 de setembro último ocorreu no caso da Fazenda Bamerindus quando um lavrador fora sequestrado por pistoleiros e setenta e sete homens armados cercaram a fazenda. O Exército baixou lá um capitão que, desastradamente, afirmou no final de contas que não havia pistoleiro nenhum e que se os lavradores não fizessem acordo iam entrar no pau com o Exército. 
Foi a primeira vez que um oficial comete um erro dessa natureza (...)".

Paulo Fonteles explica:

"Porque eu coloco isso? (...) o Exército não participa da luta direta do grileiro com posseiro, encaminha para o juiz, para o delegado e o pau corre solto".

Reportando-se a um dos mais famigerados agentes da repressão, destacou:

"O Curió é um quadro do mais alto calibre das forças armadas, inteligentissímo, habilissímo, bom de conversa. O nome dele é Curió mesmo porque é um cantador. Gentil, educado, dá tapinhas nas costas, bate-papo, conversa, conta piada, vai na casa do lavrador, toma café, dorme na rede, se junta com a massa. Têm o papel de botar sempre 'panos quentes'".

Sobre o barril de pólvora no araguaia, testemunhou:

"Agora, independente disso, os grupos econômicos atuam para tirar o lavrador da terra e a coisa chegou a tal ponto que o Exército começa objetivamente a intervir na área (...) já existe uma companhia acantonada com cento e cinquenta homens em São Geraldo para construir um quartel (...) uma estrada será aberta que ligará São Geraldo à Itaipavas (atual município de Piçarra do Pará), atravessando toda a região (...) mais ou menos uns 60 Km (...) essa estrada é uma operacional militar já preparando uma intervenção direta na área. Quando Dom Alano Penna (então Bispo de Marabá) disse que eles estão preparando uma nova guerra é porque nos últimos meses têm se desenvolvido muita luta e os lavradores estão numa ofensiva geral, estão ocupando as terras, botando pra fora o gerente, o jagunço, o fazendeirão e ficando nelas (...) só falo isso porque o Exército sabe e é por isso que manobra e faz concessão (...) porque o Exército sabe que se intervir desastradamente pode criar uma rebelião camponesa que talvez não teria condições de debelar e é por isso que eles manobram (...)".

Uma voz interrompeu-lhe a fala, perguntando:

"O povo não vincula a morte dos guerrilheiros ao Exército?"

"Claro que vincula - respondeu o advogado - eles eram amados, todo o povo gostava do pessoal, gostava pela prática correta, justa. No que toca a população, eram amigos do povo, ajudavam, socorriam. E de um modo geral, jamais encontrei um lavrador que se queixasse deles, todos só falam bem. Agora, mediante a propaganda que realizou o Exército de que eram terroristas, assaltantes de bancos, que queriam entregar o Brasil para Cuba, Rússia e China, mediante uma intensa campanha de assistência (as Operações Aciso) à população (...) e depois mediante à tortura, a violência desencadeada contra a população, eles conseguiram, na verdade, o apoio de uma parte da massa contra os guerrilheiros (...)".

É sabido que uma terrível repressão se abateu sobre toda área conflagrada da guerrilha. 
Angelo Arroyo, em seu histórico relatório, afirmara que mais de mil moradores foram presos e torturados pelas forças armadas. A caravana de familiares de 1980 constatou esse fato de que centenas de lavradores pobres, castanheiros, pequenos comerciantes, barqueiros e artezãos foram atingidos pela brutal repressão.

Em currutelas, como São Domingos das Latas e Palestina do Pará,  quase toda a população fora presa. Muitos foram trancafiados por meses e bestializados até a náusea o que revela que muitos dos camponeses haviam se ligado à guerrilha em alto nível.

Muitos, lavradores anônimos, jamais voltaram para suas casas e suas vidas modestas de trabalho duro de roça.

A força da ditadura militar, apenas no período de 1972 até 1975, tempo da existência do movimento insurgente pode ter produzido mais de trezentos assassinatos. A Comissão Nacional da Verdade têm, também, a tarefa de tirar da escuridão tais acontecimentos da vida brasileira.